Em meio às milhares de notícias esportivas publicadas no ano passado, duas aparentemente sem conexão chamaram a minha atenção. A primeira foi sobre o salário de Neymar. Nosso maior craque – na época ainda atuando no Brasil – ganhava até R$ 3 milhões mensais no Santos, segundo especulações da imprensa esportiva.
Para muitos, a notícia era animadora – um sinal de que o futebol brasileiro evoluiu e finalmente atingiu um patamar onde é possível segurar (ao menos por alguns anos) nossos grandes talentos competindo com os milionários clubes europeus.
A segunda notícia era bastante perturbadora. A imprensa brasileira noticiou uma estatística da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de que 82% dos jogadores de futebol do nosso país ganham até dois salários mínimos.
Ou seja: um Neymar pagaria o salário de mais de 2 mil jogadores de futebol, ou 201 times completos, mostrando que os enormes contrastes econômicos do nosso país se repetem também no nosso esporte favorito.
Nesse mesmo Brasil, em que é possível construir ou renovar 12 estádios para a Copa do Mundo, gastar R$ 2,2 bilhões para refazer o Maracanã e o Mané Garrincha e onde alguns grandes clubes já conseguem achar condições de bancar salários de dez dígitos, existe um contingente gigante – mais de 24 mil jogadores – que não vão participar nem de perto da grande festa do futebol em 2014.
Os números e a realidade desses atletas mostram que o Brasil talvez seja o país do futebol, mas está longe de ser o país dos jogadores de futebol. A vasta maioria dos futebolistas brasileiros não conhecem fama, conforto ou a Europa.
Eles vivem uma carreira curta, em que mal conseguem pagar as despesas de suas famílias. Abdicam do convívio diário com suas esposas e filhos ─ pois não têm condições de trazê-los nas inúmeras mudanças de clubes e cidades feitas a cada ano. Encaram o desemprego a cada seis meses, quando os campeonatos estaduais param, e a maioria dos clubes – sem torneios para disputar – precisam fechar suas portas por meio ano.
E vivem também um presente duro ─ sem direitos trabalhistas, nem união da categoria e com atrasos de salários ─ e um futuro impossível, sem planos de carreira e sem chances de poupar para a aposentadoria.
Para mostrar melhor como funciona este outro lado do futebol, resolvemos fazer algumas reportagens neste ano sobre a Série D, a quarta divisão do Campeonato Brasileiro, um torneio que oferece algumas pistas sobre a realidade da maioria ─ e não apenas da ponta de cima ─ dos jogadores, dirigentes e técnicos brasileiros.
A Série D impressiona pelo tamanho: é a única divisão do campeonato nacional com representantes de todos os 27 Estados brasileiros. São 40 times, de Caxias do Sul (RS) a Boa Vista (RR). Ela é um retrato mais fiel e abrangente do esporte nacional, afinal o futebol não é praticado apenas no Sul, no Sudeste, na Bahia, em Pernambuco e em Goiás ─ as únicas regiões e Estados representados na primeira divisão.
É um campeonato sem televisionamento e de longas distâncias e viagens ─ nesse momento, escrevo estas linhas dentro de um ônibus entre Paragominas (PA) e Belém, onde estou acompanhando a longa jornada do representante paraense para seu jogo de estreia.
São mais de 2.500 km de estrada e avião até Rio Branco, no Acre, onde o time enfrentará o Plácido de Castro. Ambas as equipes participam pela primeira vez do Campeonato Brasileiro de futebol - o jogo de estreia terminou com empate de 1 a 1.
Nosso personagem principal nas reportagens é o jovem Paragominas Futebol Clube, time registrado junto à CBF há menos de um ano, e que já conseguiu alguns feitos históricos. O primeiro foi conquistar a segunda divisão do campeonato paraense de 2012. O segundo foi derrotar o Remo em um dos turnos da primeira divisão do estadual ─ assegurando a vaga na Série D e na Copa do Brasil de 2014.
O Paragominas, como muitos de seus rivais na Série D, vive neste outro lado do futebol brasileiro. Sem grandes contratos de televisão ou patrocínios de peso, o clube ─ com seus 45 jogadores, dirigentes e funcionários ─ batalha para conseguir ascender na competitiva estrutura esportiva brasileira.
O clube atravessa um bom momento, capaz de pagar salários decentes e em dia. Mas os desafios futuros também são enormes. É preciso bancar os pesados custos de operação, administrar uma categoria de base, trazer reforços e sobreviver da única forma possível: ganhando partidas e títulos, e avançando para divisões superiores.
Muito se fala sobre o momento de oportunidades históricas que o futebol brasileiro está vivendo às vésperas da Copa do Mundo. A lógica é que com o legado dos novos estádios e a modernização nas gestões dos clubes, o Brasil tem hoje a chance de dar uma virada e deixar para trás anos de desorganização e deficiências fora do campo.
Isso talvez seja verdade para o futebol de elite. Mas e os demais 82%? Será que também terão uma oportunidade para dar a sua virada histórica?
Será que clubes novos que estão surgindo agora no outro lado do futebol brasileiro, como o Paragominas FC, vão participar também da grande festa?
